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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Debaixo de sol e chuva



O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir” 
(Milton Santos)



Nos nasceres e ocasos, percebemos o tempo, o vento, o cotidiano e tudo o que nos aquece ou nos esfria. Percebemos o mundo girar e caminhar em direção ao que não importa, pois ninguém nos pergunta se queremos ir ou não. Tal como o olhar do pescador que se perde no horizonte e cumpre seu destino desvendando o improvável – apenas pelo sentir da serena brisa na face ou pelo tremular da onda que vem ao longe – também somos impelidos aos dias e noites, como marionetes que indagam e que se encantam, sem saber exatamente pelo que. E assim, da mesma forma que o pescador pressente as respostas, mas não interfere, apenas observamos e executamos nossa parte, na rede quase eterna que mal começamos a vislumbrar.

Vivemos num mundo e numa época de extremos, onde o que é percebido nem sempre coincide com a realidade. Na estreita faixa atmosférica na qual organizamos nossa realidade, nem sempre chove ou faz sol; na verdade, nem mesmo conseguimos justificar a extensa camada de opções a que estamos sensorialmente vulneráveis. Conta observar que o que importa não é tão somente entender que a vida na redoma tem suas regras, suas preferências, seus destinos, mas perceber que essa dinâmica também nos impele a continuar e mantém abertas as portas do paralelo, daquilo que não é concebido ou mesmo compreendido.

A adversidade, a surpresa e a dúvida são partes da nossa condição de existir. Não sobreviveríamos sem elas, aliás, foi exatamente assim que alcançamos o atual  estágio, ainda que de seres que continuam a rastejar em busca de dignidade. Tais condições demandam, entretanto, outra preocupação que não compete apenas com a perpetuação da sobrevivência, mas que implica diretamente em tudo o que nos dispomos para essencialmente continuar navegando.

Deveria haver uma percepção de que estamos expostos, mais do que podemos entender, ao ciclo involuntário do processo existencial, àquele que não se preocupa se vamos dar respostas, mas que simplesmente se acomoda a toda e qualquer realidade que se apresente. Não importa as perguntas que façamos, parece existir uma continuidade, uma insistência, para que os movimentos prossigam.

Logo, os efeitos da simultânea simplória e complexa ação antropogênica talvez não tenham tanta validade assim, pois que há um ciclo a se cumprir. Há uma demanda por algo que ainda não se cumpriu. O mundo continua a girar, as placas continuam a se mover, os ventos a soprar, os oceanos a compensar gradientes térmicos e as raízes a crescer... enquanto houver um ínfimo de impulso próprio que os alimente. É a natureza na sua linguagem peculiar, que nos responde em seus caprichos e se exercita pela dimensão da beleza e da crueldade. E esta fala levará tanto tempo a se calar que até a eternidade talvez a ela se renda.

Então prosseguimos, inexoravelmente, mesmo que não muito cientes da nossa cumplicidade, mesmo que hesitantes diante da nossa perspectiva que ainda circula em proporções densas e bruscas. O que consola é tão somente a rendição ao universo etéreo e sensível de tudo o que toca o coração, de tudo o que vibra a alma e de tudo o que importa, seja qual for a história da subjetividade de cada um.


Luana Tavares

Um comentário:

  1. "... talvez até a eternidade a ela se renda". Fantástico, mais uma vez!

    Beijo grande!

    Mirella.

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