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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Majora*



Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre

(José Eduardo Agualusa, in “O vendedor de passados”)


Certos universos nos surpreendem, mais ou menos como a máxima de achar que de onde menos se espera, surgem preciosidades, ou, pelo menos, algo se mexe no espírito meio adormecido. Foi assim com a lua de Majora, prestes a cair, caso o tempo não se incumba de encontrar soluções favoráveis aos destinos incertos de cada um de seus habitantes (com seus dramas e seus sonhos inacabados). O que parecia ser uma simples brincadeira revelou-se uma reflexão curiosa sobre percepção e valores.

No interior deste belo e enigmático ambiente, crianças brincam a desafiar dilemas e nos convidam a tirar nossas máscaras, expor nossas questões e nos revelarmos.

As crianças indagam:

Seus amigos, que tipo de pessoas eles são? E essas pessoas te veem como um amigo?

Amigos... são como criações divinas,  diante das quais só nos resta nos curvarmos para agradecer. São eles que tanto nos confortam quanto nos incitam a prosseguir. São como alvoradas após a densa obscuridade da noite, onde muitas vezes nos desesperamos. Também são onipresentes e alguns parecem mesmo dotados de um sexto sentido, pois se acercam nos momentos mais peculiares.

A questão é se sabemos quem eles realmente são. Adorar alguém, estar disponível, mesmo com tanto afeto, não necessariamente implica saber com quem você está falando. Na verdade, não conhecemos o outro, pois este se fragmenta em inúmeros outros, muitas vezes desconhecidos até dele mesmo.

Muito menos sabemos como somos vistos, pois as infinitas facetas existenciais não possibilitam esta abertura. No fundo, somos desconhecidos deles e de nós, numa ininterrupta roda viva de conhecimento em tantos sentidos.

A amizade não é exatamente uma via de mão dupla, então sermos amigos de alguém não nos credencia a sermos vistos como tal. Mas acredito que sempre haja uma vontade, uma intenção, de querer vir a ser especial a quem queremos bem.

Você... o que te faz feliz? O que te faz feliz deixa os outros felizes também?

Ser feliz tornou-se uma norma, uma ilusão a ser perseguida. Para aqueles que nos acessam, podemos parecer felizes e muitas vezes até o somos realmente, provavelmente no sopro do momento eternizado pelas lentes frias. Mas e o que vai ao âmago? Desde quando ser feliz é o que importa? Devemos sê-lo simplesmente porque alguém ou alguma lei desavisada, assim o decretou? O que te faz feliz, afinal?

O que é ser feliz para você? Importa definir ou vivenciar? Algumas pessoas são felizes apenas naquilo que imaginam ou nas suas possibilidades. E isso não é bom nem mau. Para alguns, a realidade pode não ter espaço suficiente para merecer o status de participação ativa. Então, talvez a felicidade seja apenas um ínfimo momento mágico, concebido pela fugaz química jorrada em nosso ser.

Assim, o que te faz feliz não está exatamente vinculado à felicidade do outro, pois o outro tem uma química diferente da sua. Seus instantes serão, sempre, somente seus. Se for desta forma, a felicidade é singular e pode ser, quem sabe, apenas compartilhada.

A coisa certa... o que é? Pergunto: se você fizer a coisa certa, isso realmente deixa todos felizes?

Esta é uma questão tensa porque implica em saber do que se trata fazer a coisa certa. Implica, portanto, em desenvolver um aguçado senso de percepção para entender o mundo que nos cerca. Isso é quase uma aberração. Muitas vezes, o que é para mim – vital, digno, essencial – pode significar a dor alheia. Então, somos obrigados a criar novas dimensões para compor estatutos de existências, para que continue a ser possível continuar coexistindo. Arrisco-me a dizer que não... que se cada um fizer a coisa certa para si, quase ninguém ficará realmente feliz.

Seu verdadeiro rosto... que tipo de rosto é? Me pergunto...  o rosto debaixo da máscara é seu rosto verdadeiro

Se fosse possível perscrutar esse tal rosto verdadeiro, aí quem sabe pudéssemos restringir a amplitude das faces debaixo da máscara, e nos perguntar qual seria ele e onde estaria. Há tantos e tantos rostos. Nossa singularidade, afinal, não é tão singular assim. Ela comporta inúmeros eus que se formam e se deformam ao longo do dia, do tempo, da vida. Mais provável que não exista um rosto por baixo da máscara. Talvez as máscaras sejam nossos verdadeiros rostos. Não para nos ocultar, mas sim para nos revelar através do turbilhão de sentimentos e vivências que nos compõem.

Tudo isso não significa que não sejamos íntegros ou que não exista uma essência escondida em algum chacra oculto. Significa tão somente que somos complexos demais, densos demais, para permitir reduções simplistas. Assim, as máscaras podem cair ou permanecer intactas... o que importa é que sejam plenas e significativas para fazer valer seus momentos.


*Texto inspirado em um trecho do game "A Máscara de Majora" que, por sua vez, teve seu nome inspirado na lenda de uma tribo indígena brasileira, Marajora, que era conhecida por fabricar máscaras.

https://www.youtube.com/watch?v=-Gi7dhcV-AU

**Axiologias

Luana Tavares (junho/15)


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Era uma vez...*



Às vezes, eu acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã

(Alice no País das Maravilhas, Tim Burton, 2010)


As singularidades adentram os espaços terapêuticos das mais improváveis formas. Alguns chegam indecisos sobre o porquê de estarem ali, afinal nem sempre existe obviedade; outros talvez não saibam que seja uma porta para descobertas tão incômodas quanto difíceis. Existe a probabilidade de que um turbilhão os perpasse, podendo arremessá-los até a mais insana possibilidade de ser. Na verdade, percorrer caminhos de encontros pode ser tão inusitado quanto permanecer inerte no estado catatônico em que a normalidade desavisada costuma nos mergulhar.

Cada um tem sua estrada, suas histórias na bagagem, que muitas vezes arrastam melancólicos ou sem vontade, desgostosos do que mais desejam. Na verdade, as histórias se misturam em potes, cujo fundo nem sempre é visível. Falas entrecortadas de peculiaridades trazem à tona que um dia fui assim... há muito tempo não sei mais quem sou... não sei se percebi o tempo que passou  nem mesmo sei se me terei de volta... em tese, é a mesma pessoa; mas na versão real, pode ser qualquer outro alguém. É como um mistério e um desafio, uma nota dissonante de uma canção que não se acaba. Não há réquiem para os corações que pulsam.

A dádiva de penetrar mundos e se colocar disponível a compreender historicidades, preencher lacunas e reunir pontos nem sempre visíveis requer uma disponibilidade que se pretende única e que se traduz através da escuta e da presença, onde o jogo de olhares e silêncios torna-se cúmplice de atitudes que se preparam para uma de suas mais belas facetas: abrir-se ao seu papel existencial do ser cuidador.

Em alguns momentos, essa escuta apenas se faz presente, e observa, antevendo possíveis suspiros ou brilhos molhados que pendem de olhares suplicantes por se fazer ouvir. Parece tarefa árdua, mas apenas para quem não se importa. Na verdade, é como perceber universos inteiros em seus maravilhosos contos de fadas reais, onde mocinhos e vilões dançam abraçados no decorrer das páginas. Hora de ler nas entrelinhas e nas literalidades, plantando atalhos e promovendo os dados divisórios e os enraizamentos que permitirão a compreensão do quebra-cabeça existencial.  O que torna a escuta capaz é saber que participamos e coexistimos da mesma matéria daqueles que ouvimos e somos tão imortais quanto os sonhos e as vicissitudes que alimentam a todos. Então, é preciso buscar forças e bases e convocar a alteridade latente que nos permite navegar em mares tanto rasos quanto profundos.

Nos antigos e etéreos reinos distantes dos contos de fadas era fácil acreditar que os destinos se desdobravam, suspensos por mágicos eventos, revelando realidades que se confundiam e se tornavam o que quer que se desejasse. Lá, tudo (ou nada) fazia sentido e acreditar em coisas impossíveis era tão banal quanto admirar os mistérios da vida ou se colocar na condição e na ordem de um universo imaginário, sem nexo, sem limites... Em nossos tempos existenciais nem sempre os instantes se sucedem como a lógica da vida parece querer demandar. Cada história singular se confunde com si mesma, agarrando-se à fugacidade do instante presente, numa tentativa desesperada de se fazer existir. Então, só fará sentido o que estiver impresso na alma e ressignificar os caminhos percorridos.

Assim, desde que se acredite, não há limites para a os desdobramentos de qualquer relato. É papel de quem ouve estabelecer, em tácito e firmado acordo, filtros para que as essências (ou o que de fato importa) se revelem, o mais claro e limpidamente que se possa observar nas bordas cristalinas da autenticidade permitida. Porque as histórias nem sempre têm começo, meio e fim como parâmetro. Ao contrário, são capazes de ir, vir e se reproduzir a cada segundo, como centelhas inesgotáveis de matéria-prima que compõem os versos da estrada que as conduz. Histórias saltam, retrocedem, vislumbram, se alternam, coexistem e não se esgotam... como flashes existenciais que se propagam na infinitude de tudo o que poderiam ser.

Entretanto, há uma chance de não sermos pegos de surpresa pelo jaguadarte que generosamente deixamos que nos fira. Se abrirmos as portas da imaginação e simplesmente nos soltarmos, lançando nossa alma no turbilhão, talvez nos seja permitido acreditar em algo impossível: que somos capazes de fazer valer o que realmente desejamos, seja lá o que for. De preferência, antes do café da manhã.

*Historicidade

Luana Tavares (fevereiro/15)


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Azul e amarelo



‘Amar é um elo entre o azul e o amarelo'

(Paulo Leminski)

Dizem que o arco-íris condensa todas as cores, assim como sonhos, esperanças e olhares perdidos.
Ele se esquece no horizonte e cruza os destinos de quem ousa ver além, ao alcance dos que fantasiam.
Para tanto, basta a pressa da felicidade e a ingestão dos encantamentos.
Porque é preciso vida para cruzar a fonte e é preciso amor para encontrar o pote das preciosidades inebriantes.
Também é preciso acordar cedo (ou tarde), apenas para ter certeza de que mais um dia acontece para que se intencione ser feliz.
Depois, há o tempo de caminhar juntos, comprometidos com o que nem sempre importa, mas que costuma ser bom. Se no meio do caminho tropeçar, paciência. Sorria e estenda a mão à alma caída para que ela possa te puxar.
Participar de dores e dissabores também faz parte, como tempero para o prato principal, mesmo que seja só uma saladinha.
Assim como o vaivém das singularidades traçam uma dança inusitada que explode em facetas caleidoscópicas, há todos os filhos nascidos do corpo ou do coração – não importa de quem – que costumam ser a melhor parte de uma construção que vai além.
Porque adentrar arco-íris nem sempre é fácil; estar junto também não.
Mas vale a pena quando as nuances se combinam, se revelam ou se multiplicam. Ou quando alguns matizes do azul e do amarelo se misturam para adornar vivências e proclamar alegrias que ora ordenam, ora bagunçam.
Planejam ou improvisam seus cenários revestidos de cotidianos e divergências em times e tonalidades.
Mas também de afinidades e alegrias, percebidas nos olhares investidos de cores ou em preto e branco, para trilhar caminhos plenos, intensos e sem limites... não só em azul e amarelo.
Pois se amar é um elo, que este esteja perdido entre o ontem e o amanhã... que se perpetue no presente e se reconheça eterno, como os sonhos, as esperanças e os olhares que se encontram num beijo entre o sol e o céu... entre o amarelo e o azul.


Luana Tavares (setembro/14)


Para Sérgio e Kellen

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A estranha efemeridade do ser

 
Journey - Matt Nava
Não há fatos eternos como não há verdades absolutas”.

(Friedrich Nietzsche)



Quanto mais as eras se acumulam, mais a humanidade se esforça para permanecer fantasticamente bizarra. Não importa em que raio do planeta sua representação esteja, ela caminha insondável em praticamente todos os seus aspectos. Ao mesmo tempo em que fascina, surpreende, envolve... também insiste em escapar por entre os véus de uma estranheza que parece não ter fim. E não é interessante que se explique ou se justifique no que quer que seja. O (des)encanto de sua natureza exige que continue obscuro. Talvez em troca da garantia de que permanecerá incompreensível – tanto pela insanidade que cultiva perenemente quanto pela insistência em perseguir a trilha oposta à simplicidade que a faria melhor – aos olhos dos mortais que abriga. 

  
Cabe questionar se a entidade criadora presente no caldo primordial previu todas as diversidades, incongruências, incertezas e improbabilidades presentes na dimensão de sua criatura. Talvez ela também não tenha atentado nem mesmo para o alcance das potencialidades preservadas nas essências que vigoravam nos primeiros sabores da sopa que ainda hoje vertemos. Porque permanecemos aprendizes de como funcionam certos atributos desta desestruturada condição de ser. E, ao que parece, ainda estamos muito longe do ápice. Isso se houver um, é claro. Mais provável é que, tal qual o zero absoluto, ultrapassemos o ponto crítico da sabedoria e mergulhemos confiantes na cratera eterna da insanidade total. 


Quando nos deparamos com o piscar entre os instantes da vida, nos damos conta do quanto ela é singular e efêmera. Percebemos que, afinal, de tudo o que somos e sabemos, talvez nada ou muito pouco de fato importe. É a envergadura de atentar para o presente que convence a vida. Não em detrimento da historicidade ou da instância do porvir, mas para fazer valer o aqui e o agora. Ainda que a percepção da efemeridade do tempo mecânico assuste – tanto pela sua fugacidade quanto pela estranheza – ela igualmente consola. E apesar de toda a racionalidade (ou até mesmo por causa dela), ainda pisamos indecisos nos nossos destinos, na tentativa de manipular até mesmo o que não deve ser violado. Infelizmente as pretensas dignidades podem ser tão insanas e peculiares quanto a própria existência.

 
Acordar para o instante cristalizado determina o alcance das predisposições futuras. É preciso significado para perpetuar o que somos. Mas também é vital que a magia não se perca entre as brumas e as voltas por onde brincamos de existir.  Existir demanda criatividade para vazar as raias da loucura que não se esgotam e que se alimentam incessantemente das profundezas de uma primitividade que, no fim das contas, sempre faz questão de se reinventar.


Luana Tavares (agosto/14)





sexta-feira, 25 de julho de 2014

Comentário ao livro “Poéticas da Singularidade”, de Hélio Strassburger (Editora E-papers/RJ)


(BROOKE GOLIGHTLY)

“Nem sabia se era começo ou fim. Poderia ser tudo ou nada.”
Helio Strassburger


A impressão durante quase toda a leitura é de estar diante de uma poesia. Não há  absolutamente nenhuma indução neste sentido pelo título; é que ela está presente em sua fala, tanto quanto na singularidade. O ritmo é o da poesia que provoca, que não quer esclarecer, mas dar uma chance aos mais epistemológicos de se deliciar. Hélio força o leitor a fazer certo ajuste para entrar no mundo da especulação e acredito que este seja pelo menos uma de suas características. A ausência de pronomes definidos e a sensação de que estamos a todo o momento sendo levados a um caminho de sugestões – como um convite a um passeio pela complexidade das palavras – expressam bem esse sentimento.

Não há obviedade na leitura, mas e daí... também não há nenhuma no ser humano (pré-juízos meus!). Ela acontece de uma maneira curiosa, que impele a uma reflexão quase artística. Muitas vezes é possível (e inevitável) se perder na beleza da escolha de termos, que para muitos podem até ser equívocos. Quantas vezes são necessárias releituras para encontrar o sentido claro/oculto das entrelinhas. A estrutura de pensamento deve estar aberta e receptiva à percepção. Se estiver, é uma festa na apreensão e interiorização de uma possível proposta. O texto é uma dança de possibilidades e é justamente aí que reside sua riqueza. 

Nosso professor e filósofo clínico provavelmente não tem a intenção de ser elucidativo. Deixa a quem se aventura a emoção desse passeio por entre suas impressões acerca da singularidade, que por si só, convenhamos, já seria uma grande viagem. Não é fácil chegar a um consenso sobre o texto, mas existe algum que se preze a consensos? Se assim fosse não exerceriam encantos sobre os que os leem, pois estariam condenados à superficialidade dos que nada, ou muito pouco, têm a dizer, dando voltas e mais voltas sem chegar a qualquer paragem. Não que isso importe tanto, pois há vias de beleza em qualquer lugar, dependendo isso somente do momento em que se encontra a estrutura de pensamento. Mas qualquer uma é plástica o bastante para se permitir, teoricamente, qualquer movimento.

Às vezes, porém, o ritmo causa estranheza e incomoda pela extensão e pelo contexto, algo caótico. Sinceramente, ao leigo não é recomendável que esteja desbravando, iniciando, seus estudos em Filosofia Clínica, ainda que esta esteja plenamente situada em cada frase, rica ou não em seus vice conceitos, estes sempre belos submodos presentes. Assim, a percepção singular prossegue, calma e pausadamente, amadurecendo a loucura expressa na singela intenção pretensiosa da dúvida inevitável.



O texto incomoda e instiga, mas emociona. Deve ser saboreado como um desafio, como a vida. E justamente por isso que faz com que muito, de tudo, valha a pena. Um pressuposto justo a quem se aventura, mas igualmente provoca encanto em suas associações ou impressões subjetivas, pois incita o levantar dos olhos para alcançar uma visão diferenciada do próximo. O próximo também é complexo, com sua singularidade nem sempre simples e terna, mas sempre disposta a reverberar e contagiar. Como as palavras, em suas ricas disposições, podem iniciar as consequências do voo da borboleta.

Em Filosofia Clínica, a singularidade poética de cada ser consciente é justamente o que fascina. As muitas possibilidades que se abrem em torno de cada ser e em cada aventura passível de ser vivenciada é o que torna bela a caminhada. Não importa para onde o olhar se remeta, o que conta é a consciência envolvida, a respiração conjunta que impulsiona, mesmo que não se saiba exatamente para onde, ou para quê.

Hélio Strassburger é rígido quando cuida da formação do filósofo clínico e sugere, pretensiosamente, direcionar o exercício peculiar de cada um. Mas o faz de forma carinhosa e muito bem estruturada, resultado de suas vivências clínicas e dos quilômetros percorridos de uma didática envolvente e livre. Há surpresas em cada encontro.

Por Luana Tavares (julho/2014)
Filósofa Clínica
Niterói/RJ




sábado, 10 de maio de 2014

O fio de Ariadne




Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio seu. Tudo o que ele fizer à trama, a si próprio fará”.
(Cacique Seattle, da tribo Suquamish)



Certos verbos não são encontrados em esquinas banais. Permanecem escondidos, se esgueirando por entre poças e becos, de onde observam os receptáculos em que intencionam se instalar e se (re)velar. São como sombras que ocultam do mundo o que ele já conhece, mas não ousa expressar. Porque a vida nem sempre abre suas portas para que as sutis e plenas entregas existenciais prevaleçam.

Às vezes, ao contrário, a vida aposta em labirintos, na busca de ensaios e brechas por onde se espremem sonhos inconfessáveis. Sonhos de um desfazer, de isolamento, de uma perda que se esvai...como que exalando aquela sensação incômoda de que há algo fora do lugar, tal como uma nota dissonante ou uma cor fugidia da palheta inundada de nuances imprevisíveis.

São tênues os fios que mantêm as estruturas estáveis e eles podem se romper a qualquer instante, abrindo as comportas da superficial sanidade que nos define. Imersos nas densas e alucinadas brainstorms que castigam, contínua e severamente, as frágeis conexões, eles se constroem e nos induzem às vastas e profundas loucuras a que nos sujeitamos na execução dos dias. Com sorte, a loucura se apropria do ser e derrama sobre ele as bênçãos da inconsequência libertadora. Assim, se nos oferece a oportunidade de penetrarmos cada vez mais em direção a destinos imaginários, repletos de ilusões e fantasias.

Das ilusões e fantasias, Ariadne puxa o fio singular que moldará o próximo enigma a ser solucionado nas profundezas das teias que capturam e formam as essências estruturais. As teias de nosso próprio destino, que se pulveriza e se estende desde toda a eternidade. Ele nos guiará sem prevenções e sem reservas, pouco se importando de onde veio ou para onde vai. Não são os começos ou fins que prevalecem, mas as conexões que deságuam pelas camadas sucessivas de vida e morte, na romaria perene de nossos desígnios.

Também não é possível saber quando ou quantos fios irão se desprender da ignóbil e corpulenta extensão que os mantêm presos. A vida vive apenas por um e as veias se fartam de infinitos. São eles, entretanto, que nos permitem as escolhas e, através delas, os inevitáveis desdobramentos que irão gerar infinitas possibilidades sem que haja, necessariamente, uma lógica. Esta se constrói por intermédio do simples desenrolar do novelo. De cada ato, uma consequência; de cada vislumbre, uma perspectiva que, como o bater das asas da borboleta, pode alterar ou antever os caminhos a percorrer. Os labirintos existenciais se entrelaçam na desenfreada tentativa de formar uma cadeia de acontecimentos quase improváveis e impossíveis, tornando o percurso mais tenso e delicado a cada passo.


Porquês não são sempre determinados ou determinantes e, assim, pouco importa por qual direção da encruzilhada seguir. Vale mesmo o percurso, o risco do precipício e a altura aparentemente instransponível da montanha. Pois, na realidade, não temos como saber sobre meios ou fins antes do início da trilha e qualquer uma dará em algum lugar e em algum tempo... qualquer tempo ou no tempo de cada um, especialmente daqueles que não se subtraem a prazeres e dores ou a dor dos prazeres ou aos prazeres da dor.



Luana Tavares (maio/14)


domingo, 2 de março de 2014

Marionetes




“Valorize os seus limites e por certo não se livrará mais deles
(Richard Bach, Ilusões)


Somos seres complexos e dinâmicos, moldados por circunstâncias e crenças que coexistem e são tão incontáveis quanto as estrelas no céu, que brilham divinamente alheias a nossa vontade. Elas (as estrelas) se infiltram pelas existências como a bruma penetra o vazio e preenchem de sentido o que lhe convém, não necessariamente a favor daqueles a quem iluminam, mas sempre em movimento e com um delicioso toque de mistério no ar.

Somos também seres bizarros, suspensos por fios imaginários e à mercê de intenções que vasculham territórios – supostamente invioláveis – invadindo-os e arrebatando-os de sua frágil plasticidade. Ao cavalgar unicórnios delirantes pelas infindáveis e confortáveis redes, avança-se e penetram-se entrelinhas de um cotidiano fluido e surreal, composto de seres ávidos por utopia, que em muitos momentos não se importam em transgredir essências através de superficialidades.

Transitar por vieses translúcidos requer certos atributos especialíssimos, principalmente o entendimento de que respeito é bom e todo mundo gosta, mesmo quem não admite, e a lembrança de que há limites... até para o bom senso. Arrogâncias e descontroles não devem ser convidados para a festa, já que algumas expressividades se ressentem sensivelmente, além de ser indelicado, mesmo com os mais fortes. Assim, também não deveria haver espaço para a intransigência, injustiças ou preconceitos vãos, embora seja possível questionar se há algum preconceito que não seja vão. Talvez haja... quem sabe aquele que tenhamos sobre nós mesmos, sobre pensares e sentires que nos escapam e sobre a rigidez que generosamente deixamos escorrer de nossas sublimadas entranhas.

Pierre Doucin
Certo que não nos dispensamos nem das circunstâncias, nem das crenças e muito menos das estrelas. Uma vez saturados, voltamos ao ponto de partida para nos autoatribuir novas indagações, novos sentidos e novos sentires, perfazendo caminhos familiares à alma. No percurso, extravasamos os sabores que acumulamos e que por vezes nos tornam irascíveis e potencialmente suspeitos do que somos. Então expressamos confusões da alma... das trilhas por onde não supúnhamos poder passar, mas que, por isso mesmo, sedimentam solos que ainda não estão maduros.

Assim são as singularidades... diversas entre si e imprevisíveis. Não melhores ou piores, apenas diferentes. Da mesma forma, é sempre válido lembrar que não existem interpretações verdadeiras ou falsas, corretas, erradas ou duvidosas. Existem interpretações. Cada um observa o mundo a sua volta a partir de um ângulo peculiar, distinto do ângulo de qualquer outro ser, não importa quem este seja. E os contextos, mesmo os que compõem a previsibilidade do caminho, também se alternam e se conflitam... revelando facetas que desconhecemos, mas que não necessariamente nos representam em essência.

Defendemos o que acreditamos, bradamos aos sete ventos as circunstâncias e crenças das quais nos arvoramos e que nos tornam cegos à amplitude e ao respeito que a liberdade e a diversidade demandam. Mas (in)felizmente, o pulsar da vida requer mais do que a imersão no vazio interior... demanda isenção dos obstáculos existenciais. Talvez integridade seja isso: estar imerso e, simultaneamente, isento de quaisquer grilhões, ainda que obviamente os grilhões componham a essência. Talvez...

Mais provável, suponho, é que sejamos marionetes sujeitas a certas condições e medidas (com margens de erro) ditadas pelo nosso próprio – assim como de outros - tempos, textos, contextos, eventos, genéticas e sabe-se lá mais o que. Fazemos emissões a partir de sentimentos, ideologias, culturas... quase tudo invariavelmente delimitado pelas circunstâncias que nem sempre se mostram interessadas em tornar plausíveis e compreensíveis as leituras subjetivas que se sucedem. Na verdade, circunstâncias quase nunca são óbvias. Pois, por trás de cada simples evento, há uma montanha de interesses, intenções, impossibilidades, vontades claras e ocultas, assim como de fatos, ainda que muitas vezes distorcidos.  Então, não deveria haver tantos ‘estares’ mal suportados ou mal entendidos. E assim, lá se vai nossa provável integridade...

Provavelmente não nos damos conta, mas a verdade é que não devemos ser considerados paladinos do que quer que seja. Socraticamente falando, prudente reconhecer que sabemos muito pouco de quase nada e devemos considerar a hipótese de que estamos engatinhando na tênue, gentil e acolhedora, mas igualmente inconstante, atmosfera espacial e temporal. Um passo em falso da (em geral) paciente – mas nem sempre bondosa – natureza, e tudo seria posto a perder. Um equívoco de decodificação e nossos genes não saberiam distinguir o céu do mar, quiçá outras supostas verdades a que tão afrontadamente defendemos. Não há somente um universo a ser desvendado... há infinitos. Recordando o Cosmos, do saudoso Carl Sagan, percebemos que realmente não passamos de uma voz na fuga cósmica. Nossas partículas existenciais mal caminham sobre as próprias pernas e estamos continuamente fugindo de algo que desconhecemos. Isto não nos denigre ou exalta pois, ao contrário do que muitos pensam, salvo raras exceções, somos uma espécie guerreira e surpreendentemente peculiar, além de inacreditavelmente resistente. Quase certo que vamos sobreviver aos nossos próprios dilemas. E mais... talvez o Deus do coração de cada um abane em direções diametralmente opostas às nossas atuais certezas. Mas se assim for, não hesitaremos em comer outras frutas.

Acreditamo-nos convictos de tantas verdades, certezas ou necessidades, principalmente na pretensa arte de pré-julgar outros por circunstâncias efêmeras, mas não devermos nos precipitar ao que quer que seja, muito menos à arrogância. Algumas virtudes precisam entoar seus cânticos celestiais, mesmo que as notas da sapiência precisem ser comparadas a um puxão no freio para refrear atitudes e a um espelho retrovisor, que nos leva a olhar em volta e para trás. Não estamos sós. Na peculiar bolha na qual mergulhamos faz-se imprescindível avaliar que somos todos suscetíveis, vulneráveis e encantadoramente engessados. Nossas falas e sons, posturas e discernimentos, ainda que detentores e agregadores de valor, não estão imunes, através do olhar mais atento, das mesmas circunstâncias que as provocaram.

O fato é que somos frutos germinados de um acaso incompreensível... considerando que nada (nem o acaso) escapa aos olhos que nos contemplam benévolos do alto de sua magnificência. Temos, enfim, nosso quinhão de previsibilidade. Porém, os mesmos olhos que nos contemplam também nos integram. E assim somos, constantemente, levados ao sabor do vento a sobrevoar paisagens ainda inexploradas do espaço e do nosso âmago. E descobrimos que mais uma vez nos surpreendemos...



Luana Tavares (março/14)