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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Comentário ao livro “Poéticas da Singularidade”, de Hélio Strassburger (Editora E-papers/RJ)


(BROOKE GOLIGHTLY)

“Nem sabia se era começo ou fim. Poderia ser tudo ou nada.”
Helio Strassburger


A impressão durante quase toda a leitura é de estar diante de uma poesia. Não há  absolutamente nenhuma indução neste sentido pelo título; é que ela está presente em sua fala, tanto quanto na singularidade. O ritmo é o da poesia que provoca, que não quer esclarecer, mas dar uma chance aos mais epistemológicos de se deliciar. Hélio força o leitor a fazer certo ajuste para entrar no mundo da especulação e acredito que este seja pelo menos uma de suas características. A ausência de pronomes definidos e a sensação de que estamos a todo o momento sendo levados a um caminho de sugestões – como um convite a um passeio pela complexidade das palavras – expressam bem esse sentimento.

Não há obviedade na leitura, mas e daí... também não há nenhuma no ser humano (pré-juízos meus!). Ela acontece de uma maneira curiosa, que impele a uma reflexão quase artística. Muitas vezes é possível (e inevitável) se perder na beleza da escolha de termos, que para muitos podem até ser equívocos. Quantas vezes são necessárias releituras para encontrar o sentido claro/oculto das entrelinhas. A estrutura de pensamento deve estar aberta e receptiva à percepção. Se estiver, é uma festa na apreensão e interiorização de uma possível proposta. O texto é uma dança de possibilidades e é justamente aí que reside sua riqueza. 

Nosso professor e filósofo clínico provavelmente não tem a intenção de ser elucidativo. Deixa a quem se aventura a emoção desse passeio por entre suas impressões acerca da singularidade, que por si só, convenhamos, já seria uma grande viagem. Não é fácil chegar a um consenso sobre o texto, mas existe algum que se preze a consensos? Se assim fosse não exerceriam encantos sobre os que os leem, pois estariam condenados à superficialidade dos que nada, ou muito pouco, têm a dizer, dando voltas e mais voltas sem chegar a qualquer paragem. Não que isso importe tanto, pois há vias de beleza em qualquer lugar, dependendo isso somente do momento em que se encontra a estrutura de pensamento. Mas qualquer uma é plástica o bastante para se permitir, teoricamente, qualquer movimento.

Às vezes, porém, o ritmo causa estranheza e incomoda pela extensão e pelo contexto, algo caótico. Sinceramente, ao leigo não é recomendável que esteja desbravando, iniciando, seus estudos em Filosofia Clínica, ainda que esta esteja plenamente situada em cada frase, rica ou não em seus vice conceitos, estes sempre belos submodos presentes. Assim, a percepção singular prossegue, calma e pausadamente, amadurecendo a loucura expressa na singela intenção pretensiosa da dúvida inevitável.



O texto incomoda e instiga, mas emociona. Deve ser saboreado como um desafio, como a vida. E justamente por isso que faz com que muito, de tudo, valha a pena. Um pressuposto justo a quem se aventura, mas igualmente provoca encanto em suas associações ou impressões subjetivas, pois incita o levantar dos olhos para alcançar uma visão diferenciada do próximo. O próximo também é complexo, com sua singularidade nem sempre simples e terna, mas sempre disposta a reverberar e contagiar. Como as palavras, em suas ricas disposições, podem iniciar as consequências do voo da borboleta.

Em Filosofia Clínica, a singularidade poética de cada ser consciente é justamente o que fascina. As muitas possibilidades que se abrem em torno de cada ser e em cada aventura passível de ser vivenciada é o que torna bela a caminhada. Não importa para onde o olhar se remeta, o que conta é a consciência envolvida, a respiração conjunta que impulsiona, mesmo que não se saiba exatamente para onde, ou para quê.

Hélio Strassburger é rígido quando cuida da formação do filósofo clínico e sugere, pretensiosamente, direcionar o exercício peculiar de cada um. Mas o faz de forma carinhosa e muito bem estruturada, resultado de suas vivências clínicas e dos quilômetros percorridos de uma didática envolvente e livre. Há surpresas em cada encontro.

Por Luana Tavares (julho/2014)
Filósofa Clínica
Niterói/RJ




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