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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Majora*



Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre

(José Eduardo Agualusa, in “O vendedor de passados”)


Certos universos nos surpreendem, mais ou menos como a máxima de achar que de onde menos se espera, surgem preciosidades, ou, pelo menos, algo se mexe no espírito meio adormecido. Foi assim com a lua de Majora, prestes a cair, caso o tempo não se incumba de encontrar soluções favoráveis aos destinos incertos de cada um de seus habitantes (com seus dramas e seus sonhos inacabados). O que parecia ser uma simples brincadeira revelou-se uma reflexão curiosa sobre percepção e valores.

No interior deste belo e enigmático ambiente, crianças brincam a desafiar dilemas e nos convidam a tirar nossas máscaras, expor nossas questões e nos revelarmos.

As crianças indagam:

Seus amigos, que tipo de pessoas eles são? E essas pessoas te veem como um amigo?

Amigos... são como criações divinas,  diante das quais só nos resta nos curvarmos para agradecer. São eles que tanto nos confortam quanto nos incitam a prosseguir. São como alvoradas após a densa obscuridade da noite, onde muitas vezes nos desesperamos. Também são onipresentes e alguns parecem mesmo dotados de um sexto sentido, pois se acercam nos momentos mais peculiares.

A questão é se sabemos quem eles realmente são. Adorar alguém, estar disponível, mesmo com tanto afeto, não necessariamente implica saber com quem você está falando. Na verdade, não conhecemos o outro, pois este se fragmenta em inúmeros outros, muitas vezes desconhecidos até dele mesmo.

Muito menos sabemos como somos vistos, pois as infinitas facetas existenciais não possibilitam esta abertura. No fundo, somos desconhecidos deles e de nós, numa ininterrupta roda viva de conhecimento em tantos sentidos.

A amizade não é exatamente uma via de mão dupla, então sermos amigos de alguém não nos credencia a sermos vistos como tal. Mas acredito que sempre haja uma vontade, uma intenção, de querer vir a ser especial a quem queremos bem.

Você... o que te faz feliz? O que te faz feliz deixa os outros felizes também?

Ser feliz tornou-se uma norma, uma ilusão a ser perseguida. Para aqueles que nos acessam, podemos parecer felizes e muitas vezes até o somos realmente, provavelmente no sopro do momento eternizado pelas lentes frias. Mas e o que vai ao âmago? Desde quando ser feliz é o que importa? Devemos sê-lo simplesmente porque alguém ou alguma lei desavisada, assim o decretou? O que te faz feliz, afinal?

O que é ser feliz para você? Importa definir ou vivenciar? Algumas pessoas são felizes apenas naquilo que imaginam ou nas suas possibilidades. E isso não é bom nem mau. Para alguns, a realidade pode não ter espaço suficiente para merecer o status de participação ativa. Então, talvez a felicidade seja apenas um ínfimo momento mágico, concebido pela fugaz química jorrada em nosso ser.

Assim, o que te faz feliz não está exatamente vinculado à felicidade do outro, pois o outro tem uma química diferente da sua. Seus instantes serão, sempre, somente seus. Se for desta forma, a felicidade é singular e pode ser, quem sabe, apenas compartilhada.

A coisa certa... o que é? Pergunto: se você fizer a coisa certa, isso realmente deixa todos felizes?

Esta é uma questão tensa porque implica em saber do que se trata fazer a coisa certa. Implica, portanto, em desenvolver um aguçado senso de percepção para entender o mundo que nos cerca. Isso é quase uma aberração. Muitas vezes, o que é para mim – vital, digno, essencial – pode significar a dor alheia. Então, somos obrigados a criar novas dimensões para compor estatutos de existências, para que continue a ser possível continuar coexistindo. Arrisco-me a dizer que não... que se cada um fizer a coisa certa para si, quase ninguém ficará realmente feliz.

Seu verdadeiro rosto... que tipo de rosto é? Me pergunto...  o rosto debaixo da máscara é seu rosto verdadeiro

Se fosse possível perscrutar esse tal rosto verdadeiro, aí quem sabe pudéssemos restringir a amplitude das faces debaixo da máscara, e nos perguntar qual seria ele e onde estaria. Há tantos e tantos rostos. Nossa singularidade, afinal, não é tão singular assim. Ela comporta inúmeros eus que se formam e se deformam ao longo do dia, do tempo, da vida. Mais provável que não exista um rosto por baixo da máscara. Talvez as máscaras sejam nossos verdadeiros rostos. Não para nos ocultar, mas sim para nos revelar através do turbilhão de sentimentos e vivências que nos compõem.

Tudo isso não significa que não sejamos íntegros ou que não exista uma essência escondida em algum chacra oculto. Significa tão somente que somos complexos demais, densos demais, para permitir reduções simplistas. Assim, as máscaras podem cair ou permanecer intactas... o que importa é que sejam plenas e significativas para fazer valer seus momentos.


*Texto inspirado em um trecho do game "A Máscara de Majora" que, por sua vez, teve seu nome inspirado na lenda de uma tribo indígena brasileira, Marajora, que era conhecida por fabricar máscaras.

https://www.youtube.com/watch?v=-Gi7dhcV-AU

**Axiologias

Luana Tavares (junho/15)


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