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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O abismo indizível

 

A historicidade de uma leitura *


Leituras são iniciadas por inúmeros motivos, todos quase sempre válidos e necessários. Esta começou com uma proposta de um clube do livro entre três amigas (mas apenas duas seguiram no projeto), com o fim único de nos trazer momentos de integração e prazer na leitura sem compromisso. O livro foi indicação de uma delas, assim como a metodologia, que consistiu em cada uma ler um capítulo para a outra em voz alta e ninguém poderia avançar na leitura sozinha. Nada seria pesquisado a respeito da obra ou do autor e não teríamos pressa, só a satisfação de caminhar juntas pelo enredo. O lugar definido, propício à leitura, foi escolhido por ser quieto e privado, acompanhado por um chá, com torradas e bolo, eventualmente. 

E assim iniciamos a experiência de leitura mais inédita e surpreendente de nossas vidas. Uma vivência única, diferente dos padrões dos clubes de leitura. Fomos direto ao texto, sem ler orelhas ou ficha catalográfica ou qualquer outra coisa que pudesse conduzir ou influenciar a leitura. O objetivo era deixar o texto falar, sem nenhum spoiler ou agendamento. 

As descobertas e surpresas começaram logo no primeiro dia. No capítulo, o nome do personagem que ali falava em primeira pessoa. A leitura em voz alta promoveu em cada uma de nós um certo atuar com a voz. A percepção aguçada e a atenção redobrada no exercício da escuta, em contraste com o costumeiro texto escrito diante dos olhos. Foi o primeiro desafio. Costuma-se dizer que a leitura é um ato solitário. Sim, de fato. Mas ler junto pode ser um bom exercício de alteridade. Virou um evento para nós, aguardado com a expectativa de um momento ao mesmo tempo solene e agradável.

O enredo propiciou tanto uma curiosidade quanto um prazer muito grande, e a rotina dos encontros se tornou agradabilíssima ao ponto de, nos dias em que não podíamos presencialmente, fazíamos a leitura por vídeo no whatsapp. A curiosidade crescia à medida que o enredo se desenvolvia, mas nos impusemos um controle rígido, lendo apenas dois capítulos por encontro, que ocorria duas vezes na semana, justamente para aguçar o interesse, a reflexão e a espera. Essa rigidez também era para que uma não avançasse na leitura sem a presença da outra. 

Iniciamos esse processo em maio deste ano e finalizamos a leitura em primeiro de setembro. Foram praticamente três meses de muita emoção, conversas, presença e observações. Momentos livres em que duas mulheres conseguiam fugir dos seus  problemas da rotina da vida para vivenciar os benefícios terapêuticos que a leitura e a amizade  proporcionam. Isso significa muito nas corridas agitadas da vida.

Tínhamos a liberdade de falar sobre o texto e interromper a leitura para trazer observações, percepções, assim como previsões sobre o que poderia acontecer. As reações foram as mais diversas. Viajamos, refletimos e nos surpreendemos a cada capítulo. 

Logo no início o texto começou a assustar, pois o enredo foi tomando um rumo inesperado, mas nos divertimos com a obra escolhida, literalmente, pela capa e pelo título, presumindo que deveria ser algo no estilo Agatha Christie, mas na verdade era mais… muito mais, porque um livro se torna, em parte o que apresenta, mas é também o que agregamos e trazemos de nossa própria historicidade. Vale registrar, porém, que o mais importante não foi exatamente o enredo da obra, mas o processo vivenciado.

A sensação no último dia de leitura, quando a última frase foi lida e o livro se fechou (ou melhor, foi fechado) de forma diferente de todos os demais dias, foi de desamparo. Tinha terminado, chegado ao fim? Um silêncio, um susto, como se o tapete sumisse debaixo dos nossos pés e fôssemos tragadas pelo vazio de um buraco aberto diante das nossas expectativas. Acabou? Como assim? Ficamos órfãs da companhia daqueles personagens que nos  instigaram durante aqueles meses em que estivemos todos juntos. A narrativa terminou, mas a história permanecia viva em nós. 
Ao que parece, existe um poder intrínseco em cada história e ela nos remete a outras…

O abismo indizível - reflexões

“Eu sou a fronteira entre a razão e o delírio. Eu sou a sombra daqueles que estavam antes da luz. Eu sou o eco da vontade dos que moldaram o tempo com loucura.” (Warlet, p. 140) 

O abismo do indizível estava ali naquelas páginas que nos ofereceram uma viagem na qual embarcamos sem roteiro e sem saber onde iríamos chegar, mas com curiosidade e coragem para descobrir, no texto, que existe um dito que não é dito, no que é dito; mas é dito no que não é dito. Cabe ao leitor desvendar. 
É nessa hora que se percebe que o ato de leitura se desprende do texto que se oferece ao leitor como objeto.

Durante a leitura, nos deixamos levar pela história e suas surpresas. Ao terminarmos, veio a ideia de nos valer dos dados semióticos de ambas e escrever algo a respeito, para registrarmos nossas impressões e reflexões.

O que nos leva a buscar emoções que não nos são familiares no nosso cotidiano?  Em que medida ansiamos por nos surpreender nas entrelinhas de uma leitura sobre a qual nenhuma expectativa foi criada? 

Assim aconteceu com a obra A última luz da Consolação, de Rafael Warlet, escolhida literalmente pelo título. Qual não foi nossa surpresa ao nos depararmos com elementos que fogem completamente às nossas eventuais considerações. Saboreamos uma narrativa lírica, mas também dramática, com um misto de suspense policial, fantasia com um toque de tensão, e… um romance? (bem, este esteve presente apenas em nossas ideias complexas).

À medida que avançávamos na leitura, criamos apego aos personagens e nos deliciamos com as reviravoltas que suas histórias nos impactaram.

O tempo da narrativa foi de apenas dois dias, intensamente vivenciados pelos personagens. Para nós pareceu muito mais. Mas entendemos que o alcance das vivências nem sempre participa do enfrentamento do tempo… ou vice versa.

Por se tratar de uma fantasia, tivemos contato com seres imaginários e situações improváveis, que nos levaram a percorrer caminhos inusitados e imprevisíveis, com surpresas e (im)probabilidades. O abismo nos acolheu em sua escuridão, nos observou através de nossas incredulidades e nos absorveu como a risada sarcástica que o acompanhou durante esses dois intermináveis dias referidos. Mas também nos presenteou com o enigma da sua existência, com o espanto de que sempre existe a possibilidade de que algo mais exista, que a vida vai além do vislumbre do nosso olhar, que a intensidade da vida pode ser superada se nos arriscamos a mergulhar mais fundo. Ao rompermos barreiras, ultrapassamos o que somos, o que pode ser e o que, na verdade, é. Ir além pode estar bem próximo de todos nós, ainda na dimensão da vida, ainda na dimensão do tempo, nas páginas de um livro, nas expectativas das entrelinhas, nos devaneios de uma reflexão. E isso é justamente o que nos propõe a Filosofia. 

O abismo indizível desta obra é um ser imaginário e este ser nos convida a cavar a existência e nos perguntar o que existe por trás do que existe, o que deve ser visto além do que vemos, o que nos molda através da nossa própria loucura. A loucura do simples existir. 

Jandira Ramiro e Luana Tavares (Setembro/2026)

* Warlet, Rafael. A última luz da Consolação. São Paulo: Break Media Brasil, 2025.

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