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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Cegueira oculta


Dentro de nós há uma coisa que não têm nome, essa coisa é o que somos” (José Saramago)

E o que será isto que somos? O que será que se esvai de nossa pele, que se subtrai ao que havia de tão peculiar e que nos distingue em meio à multidão de seres que transitam cegamente pelas ruas vazias de identidade?

O que será que nos faz permanecer unidos, ainda que paradoxalmente desagregados, na inseparável companhia da fiel solidão que nunca descansa? O que será que nos mantém atentos a uma sobrevivência que nem mesmo entendemos integralmente?

Porque muitas vezes apenas parece que ainda caminhamos fatalmente, como cegos à deriva de uma razão, à mercê de emoções jogadas ao acaso, que nos resvalam por meio de outros... outros estes que insistem para que os decifremos.

Qual a extensão do verniz do qual nos valemos? Pois, para que o lustre brilhe, é preciso polir a face da realidade que o compõe, do fardo que se acumula pelos ombros... os mesmos que estão cansados de tantas existências, muitas delas confinadas em uma só.

Sem o sabermos, estamos continuamente no limite extremo... no limiar da sanidade que por muito, ou por quase nada, se dissipa. E as brumas são fracas se as compararmos ao destino incerto que se configura diante do inusitado. O que faríamos se hoje tudo sucumbisse? O que restaria da nossa suposta integridade se a imagem, num relance, girasse e nos virasse do avesso, pelo avesso e para o avesso da realidade.

A mesma sanidade da qual nos valemos e que nos confere a referência necessária para nos definirmos existencialmente, também nos surpreende. E se ultrapassarmos a tênue miragem que nos separa da cegueira oculta em nós mesmos, que nos impede de nos vermos como de fato somos ou de fazer rasgar as cortinas da janela – que alguns insistem em não abrir e outros apenas ainda não têm a devida coragem, pois que abrir a janela pode significar voltar a ver e isto pode ser um ato assustador – e discernir sobre  uma verdade que apenas nos pertence (a cada um, solitariamente), será que ainda nos reconheceríamos?

A coisa que não tem nome, também não tem cor, não tem brilho... essa coisa transmuta e talvez contenha em si apenas movimento... ou talvez apenas permanência. Pois se no movimento evoluímos, na permanência nos intensificamos... e tudo isso é o que somos. Não tem nome porque ainda não o descobrimos; não o compreendemos inteiramente e ainda engatinhamos tateando as margens, a vislumbrar sombras através da paredes da caverna que teimosamente habitamos.

Ainda estamos cegos de muitas luzes e talvez tudo o que somos não passe, enfim, de um turbilhão de elementos tão paradoxais e tão intensos que sua função seja somente a de se contradizer continuamente e, assim, seríamos apenas como um moto perpétuo a rebolar pelos caminhos ocultos da cegueira.

Ou então talvez, quando retirarmos o verniz existencial que nos reveste e que nos sentencia à convivência – na ilusão de que um dia alcançaremos a plenitude – possamos de fato assimilar, pelas veias de sangue, de lágrimas e de conexões ainda veladas, o que realmente somos... e neste dia talvez apenas o que importe seja enxergarmos a essência que se esconde por trás dessa coisa... a coisa que somos!

Luana Tavares

A pior cegueira é a dos que não sabem que estão cegos” (Clarice Lispector)




5 comentários:

  1. Meu bem...
    Na minha concepção, essa essência, oculta em nós, que ainda não desbravamos e que muitas vezes nos surpreende, é nossa alma.Quando encarnados, parte dela se mostra, representado por nosso Ego; mas ela é bem maior que o que vemos...Nossa missão, como espíritos eternos, é ir descobrindo e fazendo brilhar as camadas dessa alma, como fazemos ao polir um diamante, para que a pedra apareça brilhando em toda sua plenitude...
    Muito lindo, querida! Parabéns!!

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  2. Querida Die, agradeço suas lindas palavras.
    Polir nossos diamantes internos e transparecer o brilho oculto é um caminho desejável e talvez inevitável num sentido mais amplo, mas esta descoberta interior será sempre uma revelação para olhos ainda cegos de si mesmos.
    Muitos beijos e todo o meu carinho!
    Lua

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  3. Deve ser, em escala mais ampla, igual àquela sensação que a gente tem quando escreve um lindo texto ou poesia e, depois que lê, pensa assim: Nossa, fui eu quem fez isso???
    Bjos!

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  4. Muito Bom o seu texto! Uma riqueza poética entrelaçada a um vocabulário rico em um conteúdo muito bem desenvolvido! Gostei do que li! Parabéns! Beijos!

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  5. É uma honra receber esse presente, vindo de uma singularidade sensível, criativa e rica como a sua!
    Obrigada!
    Abração,
    Lua

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